Se a minha avó materna estivesse viva, teria exatos 100 anos de idade.
Neuza era a menina mais nova de quatro irmãos descendentes de imigrantes italianos que largaram tudo na Europa para tentar uma vida menos dura em terras mais cálidas.
Quis o destino – e seu pai – que ela fosse a filha escolhida para cuidar da casa, dos pais, dos outros…
Era um jeito comum de criar a cria naquele tempo.
Vovó não pode estudar como os irmãos que quiseram, se formaram e construíram carreiras sólidas e prósperas.
Para ela, restou sentar na sala de aula apenas até completar 9 anos.
Apesar do baixo letramento, era dona de uma sabedoria incomum.
Cresceu e queria ser independente, trabalhar, ganhar seu dinheiro.
Então seu cunhado lhe arrumou um emprego de secretária no escritório onde trabalhava.
Só que vovó não tinha se dado conta do papel que lhe foi dado como mulher naquele mundo em que vivia.
Vovó se arrumou toda para o primeiro grande dia.
Quando seu pai se deu conta do que iria fazer, lhe deu um tapa na cara para que entendesse que ela não podia ser quem quisesse.
E assim foi. Sempre viveu a vida pela vontade dos outros.
Cuidou da sobrinha enquanto a irmã estudava em outra cidade.
À época, a vizinhança com tempo de sobra para comentar da vida alheia, achava que aquela menina era filha dela, situação escandalosa e que também lhe prejudicou para viver um amor com o paquera da praça que lhe dava atenção e borboletas no estômago.
Ele perguntava da menina e não acreditava naquela história que parecia mal contada.
Tempos em que preconceito era tão habitual quanto comprar pão.
E a coitada ainda foi “acusada” de mãe solteira quando era tão pura quanto Maria.
Com isso, nem quem iria amar ela escolheu.
Anos depois, já casada – com meu avô que conheceu anos depois morando no Rio de Janeiro onde se estabeleceu -, era mãe de minha mãe e minha tia e queria dar um #futuro melhor para as meninas.
Aprendeu o ofício da costura e com seu talento ajudou a colocar dinheiro em casa e criar as filhas.
Passaram uns anos e sua irmã – que era diretora de um colégio particular tradicional na cidade de Niterói – lhe chamou para coordenar a cantina. Era uma forma de ganhar mais do que com moldes, linhas e agulhas.
Mais uma vez criou problema para si mesma.
Quando falou para meu avô – seu marido – que trabalharia fora de casa e não mais apenas atrás da máquina costura, ouviu dele que se assim o fizesse ele não a respeitaria mais como esposa, passariam a viver como estranhos.
E assim foi. Seguiram casados naquela relação estranha sem sentimentos – porque desta vez ela não abriu mão de tentar um futuro melhor para as filhas.
Do lado profissional deu muito certo e exerceu muito bem seu ofício. Além de costurar, virou unanimidade que cozinhava como ninguém.
Nos anos 70, quando mamãe – a caçula – casou, disse que deixaria meu avô para ser feliz.
Não teve coragem. Ficou vivendo a vida que as pessoas escolheram para ela.
No começo dos anos 2000, quando ia completar 80 anos, se deu conta de que a vida tinha passado e mesmo tarde era hora de tentar cuidar de encontrar a tal da #felicidade.
Estava tranquila com filhas e netos criados, entendendo que sua missão de cuidar – sempre dos outros – estava cumprida. Não exatamente do jeito que sonhava mas estava.
Um dia passei na casa dela para almoçar e me falou:
– Juli, decidi que vou me separar do seu avô.
– Tem certeza, vó? Agora na reta final da vida resolveu tomar esta decisão?
– Está tarde mas ainda a tempo de ser feliz.
Me deu um misto de orgulho e preocupação.
Orgulho de ver a coragem e atitude para ser feliz.
Preocupação porque sabia que certamente seria julgada pela família e amigos, mas ao mesmo tempo eu sabia que este desejo era antigo.
Mas não titubeou ou cedeu às pressões que não foram poucas – “Como pode alguém se separar com 80 anos?!” “Que absurdo!” “Vai deixar o marido sem cuidado no fim da vida?”.
Pediu, então, para vovô sair de casa e na semana seguinte da separação estava diferente, sorridente, leve como acho que nunca a tinha visto.
– O que foi, vó, que você está assim tão… tão radiante?
– Tenho ido ao baile dançar. E estou adorando isso. Finalmente estou feliz!
Nos abraçamos e vibramos com aquela alegria da liberdade tardia.
…
Quis o destino que apenas dois anos depois ela fosse descansar.
Curtiu apenas dois anos da vida do jeito que queria.
Quase duas décadas depois, vovó segue sendo uma das minhas maiores inspirações para não se deixar vencer pelas dificuldades da vida, enfrentar preconceitos e lutar por dias melhores.
Esta semana – depois do acúmulo recente de notícias desumanas enfrentadas por mulheres como nós – foi inevitável não me lembrar dela.
Se estivesse viva, com 100 anos, acharia que voltamos no tempo duro que enfrentou a vida toda.
Sim, vó, parece que nosso mundo retrocedeu.
Mas enquanto houver #mulheres neste mundo, haverá esperança.
E enquanto houver esperança, ninguém vai segurar nossos sonhos e capacidade de agir por um mundo melhor.
* Neste texto abordei as dificuldades seculares enfrentadas pelas mulheres e que precisam ser debatidas se quisermos um mundo mais #sustentavel

