Estava lendo a notícia sobre a falência da Pan, fábrica do famoso “cigarrinho de chocolate”, um hit da minha infância, e me lembrei de um “causo“.
Um misto de nostalgia e orgulho.
No fim dos anos 90 eu estava iniciando a faculdade de Comunicação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sonhando com uma primeira experiência profissional na área. (P.S. Anos depois que fiz minha transição de carreira e entrei para o universo da Sustentabilidade).
À época, programas de estágio da Globo – onde entrei no fim da graduação -, Ipiranga, Vale ou BR Distribuidora eram o sonho dos estudantes do Rio de Janeiro.
Grandes companhias com processos seletivos complexos e longos, praticamente um segundo vestibular, que se transformava em uma verdadeira porta de oportunidades.
Tinha também o programa de uma famosa companhia de tabaco.
Gigante e poderosa, ser estagiário de lá era o sonho de muita gente.
E lá fui eu me inscrever, na impulsão da juventude, da menina ávida por começar a carreira.
Passei nos testes, naquelas “aterrorizantes” dinâmicas de grupo – desculpem-me colegas de Recursos Humanos, mas atire a primeira pedra quem gosta daquele paredão de exposição e inquisição -, na entrevista com o #RH.
Só faltava a etapa final.
O grande dia seria o de desenvolvimento e apresentação de um case para a Direção de Marketing e Comunicação da Empresa.
A “prova” foi na sede da companhia, naqueles prédios luxuosos e com infraestrutura espetacular.
Subi o elevador e entrei na empresa.
De cara levei um choque. O CHEIRO. Lembro dele como se fosse hoje, vinte e poucos anos depois.
Cheiro de cigarro por todos os lados, entranhado na recepção, nos corredores, e nas salas imponentes.
Pedi para ir ao toilette e foi aquele CHOQUE: TODO MUNDO, absolutamente TODO MUNDO FUMAVA naquele local!
Uma concentração de fumaça gigante, num espaço que – aprendi quando comecei a vivenciar o mundo corporativo – deveria ser para além de fazer as necessidades básicas, relaxar um pouquinho.
Pausa para explicar:
Se você tem pouco mais de 20 anos talvez não acredite na história, mas antigamente fumar não era proibido em locais fechados.
Num passado ainda mais longinquo, até em avião as pessoas fumavam.
Colocar um cigarro na boca era sinônimo de sensualidade.
No intervalo da novela da oito, no sketch do programa de humor, o vilão do filme, todos fumavam.
Era quase que um símbolo de poder, mesmo que de certa forma velado.
Mas voltando ao processo seletivo, já na sala do “juízo final”, altos executivos que estavam ali, deram as instruções do case.
A ideia era defender a indústria do tabaco, que naquela época começava a sofrer ataques.
Aos poucos o cigarro ia sendo censurado pela sociedade, apesar de somente muitos anos depois de efetivamente proibido em locais fechados.
Fiquei pensando naquilo, no desafio pedido, e me incomodando cada vez mais.
Aquele ambiente insalubre, cartazes quase que incentivando a fumar, e aquela missão impossível…
Logo eu, que no máximo havia colocado o cigarrinho da Pan na boca, teria que defender a indústria do tabaco?
E mais: eu O-DI-A-VA cigarro.
O cheiro, a fumaça, absolutamente tudo.
Pensei e falei para mim mesma: por que você está aqui? Para quê você está aqui?
Aquilo me incomodou de tal maneira que não pensei duas vezes.
A menina de 18 anos pediu licença e com toda a coragem e certeza falou para os senhores e senhoras da diretoria:
– Sinto muito, mas isso não é para mim. Não fumo, não gosto de cigarro e sei que faz mal para a saúde. Portanto, não quero e nem seria capaz de defender esta indústria.
Todos me olharam atônitos, meio sem entender a troco de quê eu tinha chegado até ali para desistir aos 45 minutos do segundo tempo.
A minha coragem de fazer aquele anúncio foi libertadora.
Saí de la com a leveza de uma fumaça branca. De paz.
Anos depois me dei conta que isso teria nome de PROPÓSITO.
E que trabalhar com esta palavra era o que me moveria.
E cheguei até aqui sem precisar esconder a guimba de algo que a minha essência não me deixou fazer escondido.
Como é bom isso!

