Outro dia faltou água no meu prédio. Bem na hora que cheguei do trabalho, doida para tomar um banho.
A bomba quebrou de noite e ficaram de resolver no dia seguinte. O técnico foi trocar a peça mas não tinha na loja de hidráulicos. Na outra lojinha faltava outra parte do equipamento.
Horas depois, o síndico decidiu que tinha que trocar a bomba. Foi um corre-corre para conseguir a engenhoca, trazer técnico e instalar. Esta brincadeira durou infinitas 20 horas.
Para quem está acostumado a acordar e beber um copo de água gelada, escovar os dentes e tomar banho para despertar – além de passar o dia na companhia de uma garrafinha de 800 ml reabastecida pelo menos 4 vezes por dia – foi um tanto angustiante não ter água nem no filtro – que é eletrônico para facilitar, mas numa hora dessas não passou de uma máquina “imprestável”.
Ficar sem água é horrível, pior do que ficar sem luz. Impede a gente de fazer o básico e necessário, a cuidar da higiene pessoal e do lar. E é justamente na falta que a gente dá ainda mais valor para as coisas.
Eu já dava muito valor para água. Lá em casa banho é no tempo suficiente e escovar os dentes só de torneira fechada. Balde com água de limpeza vira descarga e outros truques básicos para quem tenta ser sustentável para evitar de viver “em casa de ferreiro”.
Mas depois deste dia, me dei conta do que é estar na pele de quem não tem acesso à água. Que sensação de impotência!
Imediatamente me lembrei da frase do Fabio Alperowitch, fundador da FAMA Investimentos, a primeira gestora do Brasil a usar critérios de sustentabilidade para investir em empresas: “Que direito eu tenho de viver a minha vida de privilégios sem me importar com quem não os tenha”.
Não podemos esquecer que aqueles dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio (H2O) mais o saneamento básico são recursos vitais e direitos humanos, cujos acessos são essenciais para a saúde, cuidado ambiental e prosperidade econômica. Mas vivemos em um país em que acesso à água ainda é sinônimo de privilégio.
Foi entendendo a extrema importância da água e do saneamento básico que a Organização das Nações Unidas designou um Objetivo de Desenvolvimento Sustentável exclusivo para o tema, o ODS 6. Eu olho especialmente e com muita atenção ao objetivo 6.2: Até 2030, alcançar o acesso a saneamento e higiene adequados e equitativos para todos, e acabar com a defecação a céu aberto, com especial atenção para as necessidades das mulheres e meninas e daqueles em situação de vulnerabilidade. (falarei mais sobre este tema em um outro artigo)
É angustiante saber que em 2022 pelo menos 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e 100 milhões de pessoas não têm coleta ou tratamento de esgotos, segundo levantamento do Instituto Trata Brasil.
As consequências são catastróficas: crianças, adultos e idosos doentes que muitas vezes não conseguem sobreviver a episódios de diarreia e outras enfermidades provocadas pela falta de higiene e contato com esgoto a céu aberto.
Contaminação do solo e de córregos, perda de autoestima, entre outras dores muitas vezes silenciosas.
Há tanto por fazer para tanta gente…
Do outro lado do mundo, onde estou agora, a realidade é bem diferente. Escrevo de Amsterdã, cidade da Holanda banhada pelo Rio Amstel – o mesmo que deu nome à cerveja – e com água por todos os lados. O país, com 17 milhões de habitantes, tem água potável disponível para todos e Amsterdã se autoproclama como a com a água mais pura do mundo.
Mas nem sempre foi assim. Visitei o Museu Rijks, famoso pelas obras dos artistas holandeses Rembrandt e Veermer e foi curioso ler, entre uma obra e outra, que no século XVII, a água era tão poluída na Holanda, especialmente nas regiões urbanizadas, que era praticamente impossível de ser consumida. À época, a bebida usual para matar a sede era a cerveja de baixo teor alcoólico. Não era água.
A mesma tão substância tão abundante nos dias de hoje neste país distante era coisa rara de se ver.
A Holanda se desenvolveu tanto em função da água e de suas virtudes que, entre outras curiosidades, é território do principal porto europeu, Roterdã, é o segundo maior exportador agrícola do mundo, e é uma potência global em sistemas de dragagem pela sua vulnerabilidade de ter grande parte do território no nível do mar.
Um pequeno país com muito para ensinar. Potência agrícola e hídrica que pode perfeitamente ser modelo para o Brasil que queremos.
Um brinde ao desenvolvimento!

