Vim parar no Egito.
Sonho antigo, ainda da infância, alimentado por muitas aulas de História e História da Arte, além de incontáveis horas assistindo a documentários da National Geographic e History Channel.
Visitamos pirâmides, esfinges, paredes repletas de hieróglifos, templos e museus, passando de uma cidade a outra, entre o deserto e a vastidão de água do maior rio do mundo – que corta o país do Sul ao Norte -, o Nilo.
O Egito é pura história.
O período dinástico – talvez dos mais fascinantes – foi formado ao longo de 30 dinastias, comandadas por faraós, que reinaram absolutos entre 3100 até 343 A.C..
O apogeu foi no chamado Novo Reino, das dinastias XVIII a XX, que governaram entre 1650 e 1070 A.C..
Uma história repleta de homens poderosos e egocêntricos, com suas imagens representadas e repetidas inúmeras vezes em templos espalhadas pelo território deste país do norte da África.
Mas chama a atenção a história de uma mulher. O motivo? Ela foi uma rainha FARAÓ.
Seu nome é Hatshepsut, a mais importante mulher faraó da história do Egito, da XVIII dinastia, a mesma de Tutancamon e outros líderes que ficaram conhecidos ao terem suas múmias, templos e tesouros descobertos por arqueólogos curiosos.
A história de Hatshepsut nos ensina muito sobre Diversidade & inclusão, um importante pilar da #Sustentabilidade. Mas também sobre liderança feminina em ambientes hostis.
Ela assumiu o cargo após a morte do marido e também meio-irmão, o faraó Tutemés II. O enteado, Tutemés III, ainda era criança e não estava apto a governar.
Ela então reinou o Egito por cerca de 22 anos, período de grandes conquistas, prosperidade econômica e paz. Para ser aceita e respeitada, usava vestimenta e barba dos faraós, uma alegoria para transmitir e sustentar poder.
Talvez se conservasse suas características femininas dificilmente conseguiria se impor. Assim contou a guia que nos acompanhou na visita ao grandioso templo de Hapsehut na cidade de Luxor, uma maravilha de ser admirada tanto pelo tamanho quanto pelo que as paredes revelam, além do excelente estado de conservação.
A faraó teve um inimigo que morava ao lado. Seu enteado e sobrinho, Tutemés III, que não a aceitava no poder, e tentou a todo custo lhe tirar do trono. Após sua morte, mandou desfigurar a maioria das imagens que remetia a madrasta.
Mas ele não apagou a importância de Hatshepsut na história.
Está lá seu templo, sua tumba e ainda sua múmia. Tudo fascinante! Esta última pode ser visitada no Museu da Civilização, no Cairo, para onde em 2021 foi transportada com seus pares em um desfile apoteótico entre o antigo lar, no Museu Egípcio na mesma cidade, e a nova casa.
Conheci a história de Hatshepsut e não teve como não compará-la a tantas mulheres com quem cruzei no mundo corporativo que precisaram vestir-se e agir de forma masculina, para não transparecer qualquer fragilidade associada ao sexo feminino.
Quantas vi engolindo o choro, brigando para ser ouvidas, lutando para não ser julgadas pela aparência, tendo que provar o tempo todo porque estavam ali.
É bem como definiu a professora de Direito Constitucional Gloria J. Browne-Marshal ao comentar sobre a nomeação de Ketanji Brown Jackson primeira juíza preta à Suprema corte dos Estados Unidos, em abril deste ano, para ter respeito, “precisamos ser três vezes melhores academicamente e intelectualmente, e três vezes mais calmas para não nos acusarem de sermos mulheres raivosas”.
Durante muitos anos – agora sabido desde a época dos faraós – as mulheres lutaram para ter legitimidade e espaço de poder.
No Egito antigo sua função era de cuidadoras: de filhos, maridos, casa e servos.
Interessante observar que quando retratadas nas paredes, as mulheres apareciam na cor amarelada, enquanto os homens tinham pele avermelhada. Isso porque elas pouco se expunham ao sol por viveram enclausuradas nos afazeres domésticos. Eles queimados do sol por estarem sempre em movimento fora de casa.
Hatshepsut era a faraó mulher retratada com pele amarela, barba postiça, vestimenta masculina com valentia para validar seu espaço.
Sua forma de exercer o poder certamente influenciou o papel da mulher no curso da história. Mas a que preço?

