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Gas-REC seria a “eureca” para ajudar a atingir o Acordo de Paris?

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Quem me acompanha aqui sabe que volta e meia falo de #BIOMETANO. Conheci este combustível renovável produzido a partir de resíduos orgânicos em 2014, quando comecei a trabalhar com mobilidade sustentável.

À época, parecia FUTUROLOGIA* pensar que o lixo poderia mover com qualidade, potência e segurança um ônibus de algumas toneladas carregado de passageiros.

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Mas não só foi possível como o tema foi ganhando proporções maiores ao longo dos últimos anos. Semana passada li com esperança que já foram confirmados investimentos em 27 novas usinas de biometano com potencial de conexão à rede de gasodutos nos próximos anos, no Brasil. 

Infelizmente não na velocidade que eu imaginava ou gostaria – e que o planeta precisava – mas ainda a tempo de ser uma solução econômica e ambientalmente viável para quem deseja transportar pessoas e cargas de um ponto a outro emitindo menos poluentes do que o diesel.

Agora em tempos de conflitos bélicos em países distantes, e com o mundo assustado com a inflação energética, pensar em alternativas aos derivados de petróleo faz ainda mais sentido.

No Brasil nem se fala. Descobriu-se nesses últimos anos que pode-se, por exemplo, produzir biometano com toda a sobra produtiva dos derivados da cana de açúcar. 

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O mesmo produtor que faz açúcar e etanol também pode fazer biometano. E o melhor: usando resíduos como a torta de filtro, a palha, o bagaço ou a vinhaça, ou seja, a parte sólida da filtração do caldo da cana – que até “ontem” eram um passivo econômico e ambiental, custavam e davam trabalho para se livrar.

Hoje, esta “sobra” tem um valor inestimável, especialmente para quem tiver a oportunidade de produzir combustível para uso próprio.

Isso que aponta o estudo “Transporte Comercial Net-Zero 2050 – Caminhos para a Descarbonização do Modal Rodoviário no Brasil produzido pela Bain & Company, uma das principais consultoria estratégicas globais, em parceria com a Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas, e com a Scania Latin America.

Tive o privilégio de não só estar por trás da ideia de fazer este estudo para entender como chegaríamos a um transporte pesado net-zero no Brasil em 2050 para atingir os objetivos do Acordo de Paris, como também de conduzir e participar de discussões com diferentes atores nacionais e internacionais para compreender potenciais cenários.

No material, publicado em fevereiro deste ano, o biometano aparece em todos os cenários traçados, e é apontado como excelente solução para quem produz para consumo próprio. É a usina de cana de açúcar usando esta planta tão importante para a economia brasileira para também fazer biometano e abastecer caminhões que cruzam a lavoura e vão pelas estradas até o consumidor final. 

Sai de cena o diesel e seu preço elevado. Entra em cena o biometano “homemade”. É a economia circular no campo!

Do outro lado da ponta do iceberg das emissões, encontram-se empresas que precisam transportar mercadorias e passageiros e estão ávidas por soluções sustentáveis

Seja porque estão comprometidas com iniciativas como Science Based Targets (SBTi) ou outros frameworks acompanhados com atenção por investidores preocupados com a mudança climática, seja porque entenderam que #thereisnoplanetB.

Segundo a Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), com o biometano, o Brasil poderia substituir 70% do consumo anual de diesel.

Mas sejamos realistas: se demoramos oito anos para chegar até aqui e só agora, por exemplo, vemos que o Governo lançou medidas de incentivo à produção e ao uso sustentável do biometano, ainda levaremos alguns anos para encontrar o combustível facilmente em postos ou disponível na porta das indústrias, como seria ideal.

Por isso, comecei a investigar mecanismos que pudessem de alguma forma conectar as usinas de biometano à uma demanda que tem tudo para “explodir”.

E eis que fui entender melhor o mecanismo das certificações de energia, os I-RECs. E vi que teria muito sentido aplicá-las ao mercado de gás.

Explicando: hoje grandes empresas preocupadas com suas emissões de Escopo 2 – oriundas da energia adquirida – fazem uso de I-REC, de um mecanismo de certificação aceito pelo SBTi como mitigador de emissões.

Isso significa que não necessariamente elas consomem em suas portas uma molécula de energia de fonte renovável. Mas que pagam por um certificado, um espécie de nota fiscal de comprovação de origem, para provar que aquela energia adquirida não é oriunda de fontes fósseis. E aqui vale fonte hidroelétrica, éolica, solar…

Comecei a procurar especialistas no Brasil e exterior para questionar uma possível aplicabilidade do mesmo conceito de I-REC para o caso do gás. 

Ou seja, para quem estivesse disposto a pagar por um certificado para comprovar a origem do gás consumido. Entendia que este caminho poderia abrir um mar de oportunidade para produtores levarem seu biometano e/ou biogás para consumidores localizados a quilômetros de distância mas interessados no atributo verde do combustível que dificilmente chegaria às suas portas.

Lembro que no final de 2020 fiz as primeiras provocações sobre o Gas-REC para a ABiogás, que reúne atores da cadeia de valor do biogás e biometano e trabalha em prol da inserção e consolidação desse biocombustível na matriz energética brasileira.

À época pareciam um pouco incrédulos e preocupados com o risco do mecanismo do Gas-REC competir com o mercado de carbono, especialmente os CBios já estabelecidos.

Concluímos que não eram concorrentes mas complementares.

E o melhor: enquanto quem adquirisse um CBio poderia usá-lo para compensar uma tonelada de CO2 emitida – ou seja, pagaria pelo que poluísse -, o consumidor do GAS-REC faria uso de um elemento de mitigação, nos mesmos moldes do I-REC, ou seja, contribuiria para evitar o aumento de emissões de CO2.

Fico feliz em saber que aquela semente provocadora que plantei em 2020 na associação rendeu frutos, a ponto de ser um dos temas do Seminário Técnico da Abiogás nesta quinta-feira, dia 30: “Critérios de sustentabilidade em certificações de biogás e biometano”.

Seguirei trabalhando em temas conectados ao futuro, pensando em soluções para as questões complexas de sustentabilidade, esperando que aqui no presente as coisas caminhem com a velocidade necessária para dar tempo de salvar o planeta para as próximas gerações.

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O Gas-REC faz sentido para você? Para mim é uma potencial eureca.

Provoco você a refletir, comentar e questionar o tema. 

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