O mundo está se movendo na direção equivocada.
Esta é a constatação do relatório “Estado de Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo”, publicado nesta quarta-feira, dia 6 de julho, por cinco agências da Organização das Nações Unidas.
Li com pesar que o documento aponta que em 2021 alcançamos o patamar de 828 milhões de pessoas passando fome no mundo. E o que mais entristece é saber que este número disparou com a pandemia da COVID-19, quando 150 milhões de pessoas passaram a sofrer por não ter o que comer.
As projeções são de que cerca de 670 milhões de pessoas ainda enfrentarão fome em 2030 – ou 8% da população mundial – patamares do ano de 2015, quando a Agenda 2030 foi lançada. Parece que acabar com a fome, a insegurança alimentar e todas as formas de má nutrição, como pretende o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2 (ODS 2), está em uma distância cada vez mais difícil de encurtar.
Só em nosso país são 33 milhões neste desalento coletivo, numa incansável teimosia para resistir e não desistir.
A fome no Brasil tem uma longa história que parece não ter fim, porque segue sendo um problema tão velho quanto a própria vida.
Volto no tempo quando na juventude fui marcada por duas obras essenciais para quem quer entender de onde vem a DOR DO PRATO VAZIO e suas tenebrosas consequências.
Li a ‘Geografia da Fome’ e a ‘Geopolítica da Fome’, escritos pelo – entre outras virtudes – médico, professor, geógrafo, cientista social e ativista do combate à fome, Josué de Castro.
Este brasileiro nascido no Recife em 1908 e que deixou o mundo em Paris no ano de 1973, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em quatro vezes diferentes. Seu legado foi mostrar ao mundo as origens socioeconômicas desta triste tragédia e o que poderia ser feito para minimizá-la.
Para ele, a fome estava muito mais conectada à desigualdade de distribuição de renda do que à escassez de alimentos.
Quando li Josué de Castro aprendi tanto, principalmente a exercer a #EMPATIA.
Finalmente entendi a expressão facial de tanta gente com quem cruzei na vida.
Ele descreve, por exemplo, que a falta de vitamina B2 provoca congestões na córnea, deixando os olhos vermelhos, “dando um ar de maldade à expressão fisionômica”.
E ainda completa: “A lenda do mau gênio destes camaradas de olhos injetados talvez tenha sua razão de ser, pelo menos, em parte, neste fenômeno da natureza nutritiva (…) acarretam por outro lado uma irritabilidade nervosa, tornando seus portadores mais irascíveis e descontrolados, portanto meio irresponsáveis. A sua valentia traduz muitas vezes, paradoxalmente, a sua fraqueza nervosa e o estado de miséria de seus nervos desvitaminados e superexcitados”.
Certamente você também viu gente assim e talvez não tenha entendido sua dor. Provavelmente você também tenha se assustado com sua fisionomia.
O que aprendi com Josué de Castro é que o que chamamos ou entendemos como maldade é na verdade uma consequência trágica de uma grande carência nutricional.
Mudei minha forma de enxergar quem por tantas vezes ficava invisível aos nossos olhos.
Antes a minha ignorância – seja por falta de conhecimento ou mesmo pela conjugação do verbo ignorar – me fez julgar tanta gente sem saber.
Anos depois, meu caminho profissional me levou a trabalhar com #impactosocial, #sustentabilidade e #ESG. Certamente não foi por acaso.
Tem sido um jeito de semear ESPERANÇA para um mundo mais justo.
*O relatório Estado de Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo é uma produção conjunta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

