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Com que roupa eu vou… salvar o mundo?

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Empresário fruto do acaso, o americano Yvon Chouinard transformou um hobby em um negócio bilionário. 

Foi da paixão por escalar montanhas de gelo pelo mundo que em 1973 surgiu a ideia de criar em Ventura, nos Estados Unidos, a marca de roupas e acessórios para esportes ao ar livre, a Patagonia.

Ao longo dos quase 50 anos de história, nadando contra a corrente do capitalismo “inconsciente”, a empresa virou sinônimo de propósito e de marketing anti-consumismo, graças a movimentos de ação e inovação de seu fundador. 

Em 1996, por exemplo, a Patagonia surpreendeu quando arriscou 25% de suas vendas anuais ao trocar toda a matéria-prima da linha de vestuário, substituindo o algodão normal pelo algodão.

Motivos não faltavam: 70% dos agricultores que trabalham em lavouras algodoeiras morriam de câncer. E o algodão, que representa 3% de tudo o que é cultivado globalmente, utiliza 25% de todo agrotóxico usado no mundo.

De alpinista a empresário pioneiro em boas práticas de ESG, de ambientalista a filantropo. 

Estas são as muitas facetas de Yvon, que aos 83 anos, esta semana voltou a surpreender o planeta.

Yvon decidiu doar 100% da Patagonia, avaliada em US$ 3 bilhões (mais de R$ 15,5 bilhões) para fundos e organizações sem fins lucrativos que atuam no combate à mudança climática. Ele, a esposa e os dois filhos adultos também abriram mão de suas partes.

Com isso, todo o lucro da Patagonia (aproximadamente US$ 100 milhões por ano), será destinado à organização sem fins lucrativos (ONG) Holdfast Collective, dedicada à preservação do meio ambiente, que também recebeu 98% do capital social da empresa.

As ações com direito a voto da empresa, equivalentes a 2% do capital, vão para o Patagonia Purpose Trust. O fundo será administrado por integrantes da família e conselheiros, para garantir que a Patagonia “continue operando como um negócio socialmente responsável” e que distribua seus lucros anuais para causas que combatam a mudança climática.

Esperamos que isso influencie uma nova forma de capitalismo que não termine com algumas poucas pessoas ricas e um monte de gente pobre,” Yvon disse ao jornal The New York Times. 

Se o negócio criado por Yvon inspira o mundo, do outro lado do oceano duas empresas que também trabalham no universo da moda e têxtil – e que aparentemente estavam seguindo por um caminho para o futuro sustentável – decepcionaram consumidores, investidores e outras partes interessadas.

Decepção europeia

A referência sueca de fast fashion H&M e a gigante francesa de produtos esportivos Decathlon, assumiram compromissos com a Autoridade Holandesa para Consumidores e Mercados (ACM), órgão regulador holandês, para remover etiquetas  relacionados à sustentabilidade de seus produtos. Também foram obrigadas a melhorar a forma de como comunicam seus compromissos futuros com a sustentabilidade.

A ACM fez uma ampla investigação e descobriu que a H&M usa declarações de sustentabilidade como “Conscious” e “Conscious Choice” (escolhas conscientes, em português), sem explicar o que elas significam ou fornecer uma descrição dos benefícios de sustentabilidade dos produtos. 

Além disso, a ACM apontou várias práticas da empresa em que parece fazer declarações de sustentabilidade sobre produtos que podem dar a impressão incorreta de seus benefícios de sustentabilidade ou garantir que um produto específico seja feito com materiais sustentáveis.

Da mesma forma, descobriu-se que a Decathlon usava o selo de sustentabilidade “Ecodesign” sem especificar os benefícios por trás da alegação e ainda apresenta informações insuficientes sobre seu “sistema de rotulagem ambiental”.

Em comunicado da ACM, o regulador disse que a H&M e a Decathlon também concordaram em fazer doações de €400.000 e €500.000, respectivamente, para causas sustentáveis, de forma a “compensar o uso de alegações de sustentabilidade pouco claras e insuficientemente fundamentadas”.

A Agência Norueguesa de Consumo também investiga a fasta fashion sueca pelos mesmos motivos.

A acusação de “greenwashing” – termo em inglês que pode ser traduzido como “lavagem verde” ou “maquiagem verde” para que empresas e instituições pareçam ser sustentáveis – acende uma luz para a gravidade do tema e o compromisso insuficiente de grandes conglomerados de moda em relação à emergência climática.

Moda e sustentabilidade infelizmente ainda parecem antagônicos. 

O setor têxtil é responsável por 20% da poluição de rios no mundo e mais de 5% das emissões globais de CO2.

E tudo começa pelos hábitos de consumo, cada vez mais desenfreados, apesar de tantas evidências de que o planeta Terra precisa de um respiro.

Com a popularização de fast fashions, a qualidade das roupas diminuiu, ou seja, passaram a ser mais descartáveis nos últimos anos. 

Em uma média global, o consumidor usa uma roupa apenas sete vezes antes de jogar fora ou doar.

Por ano, no mundo, são produzidas mais de 80 bilhões de peças. Deste total, mais de 5% vão parar em aterros sanitários.

É praticamente um caminhão de lixo repleto de roupas e produtos têxteis sendo jogado fora por segundo em todo o mundo.

No Brasil, segundo a pesquisa da marca Vicunha, produzir uma única calça jeans gasta em média 5.196 mil litros de água — o equivalente ao uso diário de 47 pessoas, segundo os cálculos da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Este número foi baseado em três indicadores que, somados, conferem a Pegada Hídrica total para a produção de uma calça jeans e seu uso. 

Inclui também os 100 litros, em média, usados só no processo de lavanderia, para deixar aqueles rasgadinhos ou mesmos os 460 litros de água usados pra lavar o jeans em todas as vezes que usar a peça até enjoar.

Por ser temporal e datada, a moda invariavelmente induz o consumidor a ir na contramão de hábitos sustentáveis.

Em 2018 a consultoria alemã Movinga entrevistou mais de 18.000 pessoas em 20 países para saber de seus hábitos de consumos relacionados à moda.

Os números apontaram que o consumismo não necessariamente está conectado à renda, mas a hábitos.

Curiosamente, quando lhe perguntaram “Quantas peças do seu guarda-roupa você nem tocou no último ano? E nos dois últimos anos?” os brasileiros afirmaram que só não usaram 43% das roupas do armário no último ano. Mas quando foram realmente checar, o número subiu para 76%.

Isso mesmo. De cada 10 peças do armário, é muito provável que você só tenha usado, no máximo três no último ano.

Então fica a dica para mudar seus hábitos e  olhar a moda de forma circular. Pensando em diferentes possibilidades de uso e reuso do que adquire.

Algumas formas de colocar em prática:

  • Optar por aluguel em vez de compra de novas peças, especialmente aquelas que certamente terão pouco uso, como vestidos de festa;
  • Doar roupas em bom estado que não te fazem feliz e que estão em boas condições – já pensou em doar roupa de trabalho para alguém que precise fazer uma entrevista de emprego e não tem condições de comprar?
  • O hábito de revenda e segunda mão  tem crescido no Brasil. Já experimentou e ainda encontrou uma nova fonte de renda?
  • Use e abuse de reparo e reforma de roupas;
  • Se puder, lave e seque menos suas peça; 
  • Experimente entregar roupas sem condições de doação para reciclagem e coleta correta, de forma a reduzir os resíduos enviados a aterros. Hoje muitas marcas recebem peças usadas para descarte correto, como a Hope oh Malwee.

Ou seja, ir às compras é a última coisa de que você e o planeta precisam.

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